segunda-feira, 4 de junho de 2018

peças




então és tu....
por detrás desses óculos, e olho-te nesse modo aprumado de estares, casaco azul escuro, camisa azul clara, a cor do céu ao peito, o olhar que não pára, as mãos dadas uma na outra
tantas peças juntei e agora o puzzle completo não me conclui em nada







desarrumação







Nunca duvidei da minha capacidade imensa para esquecer. Brincava de construir castelos de esperança e fantasiava conversas e paisagens partilhadas, assim como as crianças criam amigos imaginários. Mergulhava em sonhos, como quem apanha as ondas do mar - submergia neles e emergia na realidade.
Mas tudo o que guardei dele foi no coração, em vez de deixar caído num qualquer recanto bafiento da mente. É que a mente esquece, mas o coração tatua. 





quarta-feira, 30 de maio de 2018

ele



tudo é ele. até o nada é ele.
ele enche todo este espaço vazio, o silêncio grita o seu nome, a ausência toda ela cheia da falta dele.





sábado, 19 de maio de 2018

pouquices






o homem diz à mulher que no lugar que lhe foi destinado no peito, para o seu coração, não lhe cabe o imenso amor que sente por ela.
a mulher, que de tanto trazer nas camadas da pele o amor que sente por outro homem que tem em tudo o que toca, o amor por outra mulher, não sente o calor do homem que tem um lugar pouco no peito.








domingo, 6 de maio de 2018

colorir









Às vezes sou pequenina e corro para ele, para que agarre a minha mão trémula para me ajudar a atravessar alguma estrada muito barulhenta, ou a entrar numa noite muito escura e só e fria.
Às vezes uma só palavra dele basta, para colorir um dia todo cinzento.
Mas ele assusta-se, talvez porque também ele seja um menino a disfarçar de pessoa grande, e finge que não me vê, ou não me vê mesmo.










domingo, 8 de abril de 2018

mas para que servem dias neutros?









Foi a custo que despi o macacão feito do meu sentimento por ele. O fecho éclair trilhou os poros onde guardava os detalhes dele, deixando a nudez em ferida. A memória gravada nos meus dedos, ainda os guia pelos trilhos dos seus, e os meus pés ainda seguem as pegadas das palavras que ele deixou espalhadas pelos vincos da minha alma. 
Um dia, a chuva levará o perfume e as marcas e os dias voltarão a ser neutros, outra vez.