segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

minha nascente









é do silêncio e da quietude, que criamos os frágeis fios de água que formam a tempestade em que navegamos, à deriva.










domingo, 4 de dezembro de 2016

noite











Ele leu para mim.
Estava frio e era noite e ele leu para mim.
Estava frio e era noite e eu estava cansada e ele leu para mim.
Estava frio e era noite e eu estava cansada, preparou-me um banho perfumado com alfazema e ele leu para mim.
Estava frio e era noite e eu estava cansada, e acolhi-o nos meus braços, e os nossos corpos num só descanso, enquanto ele lia para mim.


Estava frio e era noite e eu estava cansada.
Adormeci e sonhei que ele lia para mim.












domingo, 27 de novembro de 2016

as palavras












sentiu uma náusea no peito. jamais voltaria ao instante antes da desilusão.
é costume, dissera-lhe ele, reduzindo os aconteceres a banalidades.

e os poemas que ele lhe escondera nos recantos do corpo, estilhaçaram-se na lonjura do olhar.







quarta-feira, 16 de novembro de 2016

a estação por dentro











conto-te do desperdício das estradas percorridas dos rios atravessados do tempo gasto do cansaço sentido
sem ser para ti
trazia nos meus olhos as cores todas dos outonos todos para pousar nos teus olhos
não te vi 










sábado, 12 de novembro de 2016

poderá a distância também deixar de ser longitude?








repara
anoiteceu
o dia esfumou-se e não sei onde ficaram as 24 horas
é urgente encher cada hora de vida, adensar o dia, adentrar a vida
é a única forma de não perder os dias de não perdermos a vida
deixa-me pousar demoradamente os meus olhos nos teus
também deslizarei lentamente os dedos na tua pele
imagina
o meu rosto tão perto do teu pescoço enchendo o meu peito com o teu perfume
ninguém notou que o tempo deixou de existir e que a vida vale pelo que vivemos
cinquenta anos é nada
um dia é uma vida
repara
o sábado acabou
anoiteceu
o dia não chegou a ser








quinta-feira, 10 de novembro de 2016

e, com sorte, sonharei contigo







escrevo-te de olhos fechados
- os meus olhos já se fecharam
- pois, está a escrever de olhos fechados - dizes
estou.
fecho os olhos e imagino-te. ontem cheguei mesmo a sentir o teu corpo na minha mão. a textura da pele, a temperatura, a resistência da carne ao toque, a surpresa, a cedência.
tu pões as palavras no lugar certo, no momento certo, fazes tudo certo quando escreves. adivinhas-me, coincides-me. 
eu sorrio.
tu não me vês.
deitada, ponho os óculos para te ler, respondo, tiro os óculos, fecho os olhos, para de seguida colocar os óculos, escrever-te, tiro os óculos, fecho os olhos e começo a sonhar, para depois recomeçar tudo outra vez. brincas de não me deixar dormir, e eu deixo.
o meu corpo está tão habituado às tuas palavras, que reage antes de te ler. e tu sabes, fazes delas ondas e brisa e pluma e perfume e toque de algodão.
adormeço com os óculos postos. 
estão todos torcidos, os óculos, e o meu pescoço também.











quarta-feira, 9 de novembro de 2016

são cada vez menos as palavras que merecem maiúsculas









meu querido, o trump ganhou as eleições nos eua. no meio deste absurdo todo fica-me a certeza de que tudo é possível. 
quebremos as regras, não pensemos em consequências, vamos deitar fora a lista de conduta das nossas limitações. vamos ser loucos e irresponsáveis para nosso prazer, num mundo sem amanhã previsto, liderado por loucos por poder, eleitos por pessoas ávidas de supremacia.

as dias já não serão muitos, meu querido.