quarta-feira, 24 de agosto de 2016

faz-se tarde















nunca lhe disse o quanto o queria, com medo de o perder, e perdeu-o por nunca lhe ter dito o quanto o queria.











terça-feira, 23 de agosto de 2016

o tempo envelhece se não te olho










desejo ver-te com os olhos do corpo. demorar o olhar no teu, sem tempo, que o tempo havia de querer parar também, no caminho do meu olhar para os teus olhos.
desejo ver-te com os olhos do corpo, tocar-te para além da alma, a pele. prometo que não demoro o toque, mas esse segundo permanecerá colado aos meus dedos. tempo feito carne, tempo que não foge.
desejo ver-te com os olhos do corpo, sentir o teu cheiro. inspirar e guardar no peito o teu aroma. não expiraria aquele pedacinho de ti, e traria, qual talismã, colado ao timo.
desejo ver-te com os olhos do corpo e arriscar perder-te.
perder-te prolongar-se-ia no tempo. seriam anos, seria o resto da vida, seria para além da vida, lodo, alcatrão, teia prisioneira, peçonha colada ao corpo.

o tempo não é mais do que este querer que não se cumpre. 
pararei o tempo ao olhar-te.











domingo, 21 de agosto de 2016

de tanto adiar já não se espera











são quatro da manhã e a não há uma nesga de lençóis frescos na cama.
dispo-me para te sentir.
os meus braços rodeiam o meu corpo.
as minhas mãos abertas percorrem a minha pele. 
reconheço-me.
são tantas as distâncias.














sexta-feira, 19 de agosto de 2016

ela e o outro












ele pensou que dizendo-lhe que a amava faria nascer o amor dentro dela. como num livro de auto-ajuda que nos aconselha a dizer em frente ao espelho 'eu amo-te', e passado algum tempo, a nossa auto-estima aumenta. 

mas não, ela não era um espelho, a vida não é um livro de auto-ajuda, e ela já tantas vezes lhe tinha dito que não a chamasse de princesa, nem de bela, nem de amor. que a chamasse pelo nome. 
ela gostava tanto de ouvir o seu nome... 
mas ele continuou. dizia que a amava, com diferentes formas de dizer, e ela a ver-lhe nos olhos, a ouvir-lhe na voz, aquela tentativa de a convencer, de se convencer. 
ela a ver nele e a ouvir nas suas palavras, o que ele não mostrava nem dizia.

então ele cansou-se de esperar que ela retribuísse as palavras de amor, que ela lhe dissesse 'eu também' para as saudades, para os sentimentos, para os desejos. 
ela não espelhou, e amar, não é sentir que se esforce, pensava ela.

então o cordão quebrou-se.

ela respirou fundo. 
regressava novamente a ela, sem expectativas, livre para ser aquela bola pinchona, que tanto está lá no alto como cai a pique, sem ter que explicar porquê. 
livre para fraquejar, se o cansaço for muito, livre para ser ela, para pousar o seu corpo num banco de jardim, e deixar os olhos perderem-se no rio. 

ele seguiu caminho em busca de outro espelho que reflectisse o grande conceito que tem de si mesmo, alguém que pela insatisfação, procurasse patamares mais altos para atingir. 
ele nunca se contentaria com o banco de jardim nem nunca perceberá que ela se espelha, mas é no rio, eternamente enamorado do mar.

ele encontrará um outro amor que gostará que lhe chame princesa e todos os nomes que não o dela.

ela, continuará, com os olhos fitos no ponto em que o rio se une com o mar.











quinta-feira, 18 de agosto de 2016

meu desassossego













tu és a distância e a proximidade, o meu silêncio, o lugar onde me reconstruo, onde me reencontro, onde me ouço, onde me abrigo.











quarta-feira, 17 de agosto de 2016

não estás










o preço a pagar por estarmos com quem amamos, é o tempo diluir-se no vento, as horas a encolherem o dia, o relógio a atropelar minutos, o sol que nasce tão perto da lua.
agora, que não estás,  o tempo alarga-se e esbanja espaço, onde finalmente, caibo eu e tudo o que tem que ser feito.

mas tu não estás.













só tu poderias entrar aqui agora













não digo a ninguém que me acontecem uns dias de solidão.
só tu.
só tu poderias entrar neste espaço em que só caibo eu.
só tu.