domingo, 14 de janeiro de 2018

pela pele dele






nunca disse o nome dele em voz alta, mas, hoje, encontrei-o escrito a lápis, letras maiúsculas decalcadas várias vezes, emolduradas num rectângulo tosco de carvão. 
os meus dedos passeiam-se pelo relevo do papel, como o meu sonho pela pele dele.








domingo, 7 de janeiro de 2018

perdi-lhe o jeito




a verdade é que lhe perdi o jeito. sinto-o. foi preciso muito pouco tempo, apenas o tempo de descurar a pontuação numa frase sem importância e os meus dedos hesitam entre um ponto e uma reticência, ou sem saber como percorrer os seus cabelos prateados, que é o mesmo que tentar escrever poemas.
perdi-lhe o jeito.
já não sei onde colocar o riso nem a maciez dos lábios num sussurro. perdi-lhe o jeito, perdi-lhe a mão. já nem a minha pele encosta na dele e os meus poros já não se exaltam com a ideia da proximidade dos poros dele. já não sei passear-me pelo seu corpo e o pudor ocupou o lugar da entrega no meu olhar, quando o olho, cada vez menos.
perdi-lhe o jeito.
os textos voltaram a ser um conjunto de palavras e os quadros uma porção de cores. os dias são apenas 24 horas e as árvores deixaram de falar o que ele cala. 
agora a noite caiu e perdi-lhe o jeito.






quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

chove





Há quanto tempo eu não parava para ver a chuva cair. A chuva traz-me a memória dele, assim como o sol, os dias azuis e o mar. Assim como o adormecer e o acordar, assim como a música e o silêncio, a escrita e a leitura. Assim como a nudez ou as vestes macias, assim como estar ou não estar. Assim como respirar.





sábado, 16 de dezembro de 2017

sem ele







cubro-me.
reaprender o corpo, a pele, o toque, a saliva, as encostas, os rios, a foz, as ondas, a espuma.
a vida toda.













quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

À tua palavra me acolho



À tua palavra me acolho lá onde
o dia começa e o corpo nos renasce
Regresso recém-nascido ao teu regaço
minha mais funda infância meu paul
Voltam de novo as folhas para as árvores
e nunca as lágrimas deixaram os olhos
Nem houve céus forrados sobre as horas
nem míseras ideias de cotim
despovoaram alegres tardes de pássaros
O sol continua a ser o único
acontecimento importante da rua
Eu passo mas não peço às árvores
coração para além dos frutos
Tu és ainda o maior dos mares
e embrulho-me na voz com que desdobras
o inumerável número dos dias

Ruy Belo




terça-feira, 12 de dezembro de 2017

regresso a mim






escreverei até que os dedos sangrem. e quando o cansaço romper a pele, levará o arrepio e a vertigem, o verbo e a melodia, o toque e o suspiro, a memória do invisível, para que as veias voltem a ser a casa do meu sangue, e que de mim apenas reste eu.