domingo, 16 de julho de 2017

motivos












a razão primeira deste blogue, foi tentar ser outra, oposta a mim mesma. não consegui.
a razão segunda deste blogue, foi dar voz a um querer mudo, a uma vida inexistente.
procuro um terceiro motivo, igualmente incoerente.










quarta-feira, 12 de julho de 2017

tu sabes







Quiero que sepas
una cosa.

Tú sabes cómo es esto:
si miro
la luna de cristal, la rama roja
del lento otoño en mi ventana,
si toco
junto al fuego
la impalpable ceniza
o el arrugado cuerpo de la leña,

todo me lleva a ti,
como si todo lo que existe,
aromas, luz, metales,
fueran pequeños barcos que navegan
hacia las islas tuyas que me aguardan.

Ahora bien,
si poco a poco dejas de quererme
dejaré de quererte poco a poco.

Si de pronto
me olvidas
no me busques,
que ya te habré olvidado.

Si consideras largo y loco
el viento de banderas
que pasa por mi vida
y te decides
a dejarme a la orilla
del corazón en que tengo raíces,
piensa
que en ese día,
a esa hora
levantaré los brazos
y saldrán mis raíces
a buscar otra tierra.

Pero
si cada día,
cada hora
sientes que a mí estás destinada
con dulzura implacable.
Si cada día sube
una flor a tus labios a buscarme,
ay amor mío, ay mía,
en mí todo ese fuego se repite,
en mí nada se apaga ni se olvida,
mi amor se nutre de tu amor, amada,
y mientras vivas estará en tus brazos
sin salir de los míos.

Pablo Neruda










sexta-feira, 7 de julho de 2017

brinca comigo









ele brinca comigo. 
ele chega sem avisar, e, matreiro, joga aos berlindes com as minhas sensações e desperta os meus arrepios, faz vertigens dentro de mim. 
ele esconde palavras nos recantos do meu corpo - suavidade, intensidade, calor, pele, dedos, todo, inteiro, aroma - e nos lábios deixa sempre reticências.
ele enfeita-me o cansaço de poemas - I'll be here when you want me like the sound inside a shell - e eu a saber que não e a fingir que sim.
ele faz do meu duche uma sinfonia dourada e envolve o meu corpo de uma espuma que eu nunca vejo, mas sinto. 

ele desaparece sem avisar e eu nem o vejo ir, assim como quando ele está e eu não o consigo ver, mas está, naquele lugar dos segredos da alma. 
outras vezes, e estas cada vez mais vezes, ele esconde-se de mim e o meu coração, que costumava ficar assim encorrilhadinho, também aprendeu finalmente a não esperar, e então, o meu músculo guardado dentro do peito, deixou de mirrar, ou então já tinha secado tudo o que tinha a secar e ficou ali assim, a bater para viver. os arrepios também desapareceram de tanto antever que ele partiria sem que eu percebesse, e as vertigens sossegaram, não mais senti que não podia regressar do mergulho que me fazia entrar em mim pela mão dele. o meu duche é agora apenas a água quente que me conforta e os recantos do meu corpo deixaram de abrigar palavras. as reticências nos meus lábios foram caindo aos poucos, e apenas resta um ponto, só, sem continuação. 

ele continua a chegar e a partir sem avisar. 
ele é menino e brinca comigo. 
eu, perdi-me no passar do tempo.












quarta-feira, 5 de julho de 2017

pouca coisa









acordo e ele não está. aliás, nunca está. os meus passos descalços percorrem silenciosamente a casa sentindo a maciez da madeira morna. a ausência dele é uma segunda pele, um manto que cobre a minha figura nua. já nem a falta lhe sinto. entro no dia com o corpo todo e ele não é senão este burburinho que sinto em todos os poros.








terça-feira, 4 de julho de 2017

o vento voltou









e o vento voltou. de sul, de norte, voltou numa dança ​louca ​de roda baiana. ​numa reza só minha, peço-lhe que leve a saudade, a distância, a tristeza, a falta, todos os arrepios que são dele na minha pele, o aroma do perfume que não cheirei, o toque que não senti, os poemas que ele não me leu, tudo o que nele me amputa, e, que me deixe o sono para que eu descanse.