domingo, 20 de agosto de 2017

ainda







por vezes abismo-me no desejo dele e fico assim, parada na beira da vontade de lhe chegar, de lhe escrever, de o sentir, de me rir por causa dele, mas fico assim a vê-lo na distância de mim, e eu ainda tão próximo tão com ele por dentro tão com ele por todo o lado tão com ele ainda em tudo.









quarta-feira, 16 de agosto de 2017

enroscada








os meus olhos deitam-se nas palavras dele, como no inverno, um gato enroscado à lareira. leio-as, uma a uma, lentamente e não entendo o presente.
[os contos de crianças sempre trouxeram dentro uma história de assustar.]
não entendendo a vida, fico-me num tempo que não vivi.







terça-feira, 15 de agosto de 2017

Saber medir distâncias é uma coisa muito importante







Eu não tinha nada de felino, tu sabias
que eu não tinha nada de felino.
Nenhum de nós se admirou quando
medi mal a distância e falhei o salto.
Enquanto ia no ar parecia que era
um salto bom, porém houve qualquer
coisa que correu mal e caí com estrondo
no chão. Ninguém riu. Não era caso
para rir. Grande ilusão ir pelo ar a pensar
que o salto podia ser bom, sem eu ter
nada de felino, sem nunca ter treinado,
sem fazer sequer aquecimento, sem
olho para medir distâncias. Saber medir
distâncias é uma coisa muito importante,
pode falhar-se a vida por milímetros.


Helder Moura Pereira






segunda-feira, 14 de agosto de 2017

choro









Ela olha para o sinal que o identifica e chora. Finalmente chora. Chora o lugar vazio, o tempo passado, o que esperou, chora o que calou, chora o que cala. Finalmente chora.
Dizem os antigos que as lágrimas lavam a alma, contêm sal e o sal é sagrado, limpa purifica.









domingo, 13 de agosto de 2017

vento








inesperadamente volto à falta que ele me faz e se reflecte neste peso vácuo, que nos ombros me desperta aquele súbito cântico árido.












sexta-feira, 11 de agosto de 2017

sem querer







de cada vez que os meus olhos se passeiam pelo que ele desenha da vida, a minha visão alarga, o meu rosto amacia e surpreendo-me a sorrir-lhe.









terça-feira, 8 de agosto de 2017

São mil e umas as noites em que não bato à tua porta




Principe:
Era de noite quando eu bati à tua porta
e na escuridão da tua casa tu vieste abrir
e não me conheceste.
Era de noite
são mil e umas
as noites em que bato à tua porta
e tu vens abrir
e não me reconheces
porque eu jamais bato à tua porta.
Contudo
quando eu batia à tua porta
e tu vieste abrir
os teus olhos de repente
viram-me
pela primeira vez
como sempre de cada vez é a primeira
a derradeira
instância do momento de eu surgir
e tu veres-me.
Era de noite quando eu bati à tua porta
e tu vieste abrir
e viste-me
como um náufrago sussurrando qualquer coisa
que ninguém compreendeu.
Mas era de noite
e por isso
tu soubeste que era eu
e vieste abrir-te
na escuridão da tua casa.
Ah era de noite
e de súbito tudo era apenas
lábios pálpebras intumescências
cobrindo o corpo de flutuantes volteios
de palpitações trémulas adejando pelo rosto.
Beijava os teus olhos por dentro
beijava os teus olhos pensados
beijava-te pensando
e estendia a mão sobre o meu pensamento
corria para ti
minha praia jamais alcançada
impossibilidade desejada
de apenas poder pensar-te.


São mil e umas
as noites em que não bato à tua porta
e vens abrir-me

Ana Hatherly




segunda-feira, 7 de agosto de 2017

momento









quando, como neste momento, o meu corpo cedia ao cansaço e as pálpebras teimavam em fechar os meus olhos, ele chegava com um entrançado de palavras, e levava-me, pela mão, a fazer o resto do caminho.










domingo, 6 de agosto de 2017









Estávamos em Agosto, fechei o caderno contigo dentro, nunca mais voltei a apaixonar-me.

Al Berto








dele








dele, ficou-me a pele. 
ele ensinou-me esta relação comigo mesma. eu, vestida de mim.
acordo na languidez das manhãs de domingo e passo a mão pelo meu corpo num reconhecimento matinal. ele está por todo o lado, em toda ausência dele, em mim, por todo o lado, em todos os poros.












sábado, 5 de agosto de 2017

verde







estou há cerca de uma hora a observar o movimento incessante dos ramos das árvores ao sabor do vento. entretanto a noite cai e eu assisto ao escurecer.
não sei porque ainda me pergunto porque ele partiu, se é tão óbvio que até os olhares cheios de verde cansam.











quinta-feira, 3 de agosto de 2017

guerreiro






foi logo na primeira postura que comecei a esquecê-lo. assim que coloquei um pé perpendicular à parede, o outro paralelo, a perna flectida de forma a que o joelho alinhasse com a ponta do pé, e os braços abertos, alinhados com as pernas, foi aí que deixei de pensar nele. logo no primeiro minuto. no final, passados 50 minutos, em que o corpo mal obedecia à ordem para caminhar, já tinha esquecido o meu amor eterno por ele. 







quarta-feira, 2 de agosto de 2017

contudo




não estou certo de nada. gostava, contudo,
de acreditar que existes, para te esperar sem
angústia, talvez pôr a música mais baixo, ouvir
os vizinhos a conversar, preparar coisas para te
dizer, ler um livro, vestir-me. gostava de ter
por ti um amor convencional, sem ter de o
imaginar. com um jantar pelo meio, um passeio
no mais popular do parque, a ver cisnes e a
fugir dos cavalos. mas não estou certo de nada, e
mais fácil é fechar as portadas, escolher um cobertor
quente e fazer com que vente mais e mais lá fora

valter hugo mãe