terça-feira, 13 de setembro de 2016

é só a história de uma noite de uma mulher qualquer













conta-me:

eu não quero isto para mim - pensou naquela noite já longinqua, com aquele homem no meio das suas pernas, em movimentos ritmados.
ela acreditara que ele, que dizia que a amava, tinha mãos de cura, que se se entregasse a elas, sararia feridas passadas, na alma. 
e permitira. 
ele desceu as alças do seu vestido e despiu-lhe os seios. desfez-se da roupa dele e da dela, e naqueles movimentos que se passavam por dentro dela, por muito mais dentro do que ele poderia imaginar, perguntou-lhe se tinha 'acabado'. ela disse-lhe que não, mas que não se preocupasse com isso. com um suspiro e um tremor, o corpo dele pousou, pesado sobre o dela. 
gostaste? - perguntou, ao que ela disse que não era pergunta que se fizesse, e recusou o banho que ele sugeriu. 
não preciso - disse, enquanto ele se levantava com pressa para o duche.
ela vestiu-se com calma, e acolheu-o no seu colo depois de lavado, não entendia ela do quê. passeou os dedos pelo  cabelo grisalho do homem e conversaram sobre nada.
quando regressou a casa, debaixo da água do seu chuveiro, reparou que ele nem lhe tocou no corpo, com as mãos.

pergunto-lhe se valeu a pena, se se sente curada. 
ela fecha os olhos e esconde a mágoa por baixo das pálpebras. 















domingo, 11 de setembro de 2016

a ti, a quem não nomeio











como quem solta um adesivo colado  numa queimadura, 
a pele em fogo que ficou depois de ti, 
tu soltas-te, 
gentilmente, 
de mim










sexta-feira, 9 de setembro de 2016

eu gosto tanto de ti












andei todo o dia perdida. não saber de ti, é não ter norte, nem chão, nem repouso, nem âncora.
cheguei ao fim da noite sem tecto.
comi demais.
bebi demais.
tento preencher o espaço que deixas vazio em mim, com coisas, tarefas, espécie de desejos.
eu gosto tanto de ti.
eu gosto tanto de ti.












terça-feira, 6 de setembro de 2016

venha o inverno












Esperei-te em agosto, todo o mês de agosto. E não vieste. Já te tinha esperado em janeiro, fevereiro, março, abril, maio, junho e julho. Espero-te em setembro e esperar-te-ei em outubro, novembro e dezembro. Tu não virás. Mesmo assim, espero-te.

A minha boca cala, mas os meus olhos são o banco de jardim onde eu aguardo, e as pessoas perguntam – o que esperas? – e eu, olhos presos no rio, nunca direi que espero ser foz. 











segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Cet Amour

ar













os corpos deles viviam desencontrados dos lugares onde as suas almas se juntavam. 









quinta-feira, 1 de setembro de 2016

talvez um dia venhas e partilhes comigo este silêncio














a casa está vazia.
ouço o silêncio como quem trinca melancia em dia quente de verão.
respiro o ar frio da noite.
o peito treme por dentro, de prazer.
culpam-me por gostar tanto disto, de ser assim, só. é um insulto, uma bofetada, à ordem natural da vida, insistem.
no fundo, eu espero-te. 
espero-te porque nunca virás.